Gonçalo Naves:”A Escrita foi-se construído a ela própria”.

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O jovem autor de Sines Gonçalo Naves apresentou no dia 23 de Janeiro, na livraria A das Artes, o seu livro de estreia, “Bem-vindos a Esta Noite Branca”. A frequentar o 1.º ano da licenciatura de Direito, em Lisboa, Gonçalo faz aos 19 anos a sua entrada no espaço público das letras, depois de se ter destacado como talento do basquetebol nos escalões jovens. Começa agora o seu caminho como escritor atento à realidade e aos dramas humanos à sua volta.

P: Em que circunstâncias o jovem talento do basquetebol que já conhecíamos se transformou no escritor que descobrimos agora?

R: De facto joguei basquetebol durante vários anos, primeiro na região e depois em Lisboa. Parei quando me lesionei gravemente e fui operado ao joelho, não tendo a recuperação corrido da forma esperada. Aí, tendo bastante mais tempo livre, resolvi voltar a pôr em prática uma atividade que durante toda a infância me foi bastante querida – a escrita. Foi um processo natural que culminou no livro “Bem-vindos a Esta Noite Branca”, que, por sinal, me deu bastante gosto a escrever.

O que significa escrever e o que significam os livros para alguém que cresceu num tempo em que os meios dominantes são outros (televisão, internet, redes sociais, etc.)?

Na minha juventude os livros e os outros meios dominantes que refere sempre tiveram uma existência comum e pacífica. Não será por ter um gosto especial pela escrita e pela literatura que negarei a importância da internet, dos telemóveis, etc. Todavia, penso que a escrita possibilita ao jovem do meu tempo encontrar uma faceta de criação e um encontro intrapessoal que me parece impossível, por exemplo, às redes sociais. Será importante, na minha modesta opinião, que a leitura (e não terá que ser obrigatoriamente de livros – determinados jornais e revistas também se adequarão) esteja sempre presente na vida de toda a gente, especialmente de um jovem, por possibilitar permear as fronteiras da expressão e reflexão. No entanto, tudo o resto deve também existir no dia-a-dia de um jovem, em conta peso e medida.

Fez questão de editar o livro em papel. Como se posiciona no debate livros em papel versus e-books?

Numa perspetiva pessoal, acho que o valor do livro em formato físico nunca se perderá. Apesar do crescendo inegável dos e-books e audiobooks, que disponibiliza novos formatos que enriquecem o leque de hipóteses disponíveis para alguém que quer ler (o que é bastante positivo), penso que será pouco possível que os livros em formato impresso desapareçam do nosso quotidiano, pelo menos a médio prazo. O gosto, por exemplo, de poder folhear e ter o livro presente à cabeceira fazem com que o valor do objeto físico se mantenha elevado.

Existem escritores mais centrados na realidade que observam e escritores mais centrados nos mundos imaginários que criam. É correto dizer que o Gonçalo se sente mais atraído pela realidade do que pela imaginação?

Sim, é correto dizê-lo. É algo que vem de mim mesmo, relativo à minha pessoa, e por isso talvez não haja uma razão que explique completa e indubitavelmente essa circunstância. No entanto, poderei afirmar que com certeza terá contribuído o facto de todas as minhas influências a nível literário serem escritores muito focados na realidade e na denúncia e descrição de situações quotidianas.

Como foi o processo de escrita deste livro?

O livro surgiu do nada. Quando o comecei não tinha qualquer plano daquilo que iria escrever nem como o quereria escrever. Foi tudo surgindo, a escrita foi-se construindo a ela própria, assim como o conteúdo. A parte mais difícil de todas não foi a composição, digamos assim, do livro. Foi, essa sim, a correção posterior, a análise do que estava escrito e o processo correspondente à mudança de várias palavras e expressões por outras aparentemente mais indicadas.

Com que escritores – contemporâneos ou não contemporâneos – sente mais afinidades? Porquê?

A resposta passará por dois nomes principais: António Lobo Antunes e José Saramago. Ainda assim, seria impossível deixar de referir os incontornáveis Fernando Pessoa, Cesário Verde, Miguel Torga e Eugénio de Andrade. Há também alguns outros escritores contemporâneos que aprecio igualmente, como José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe.

Que lugares, que gente e que conflitos podemos esperar encontrar em “Bem-vindos a Esta Noite Branca”?

Em “Bem-vindos a Esta Noite Branca” poderá ser encontrado o drama de uma família portuguesa enquadrada numa situação delicada, devido à doença do seu mais recente membro. Tentei, também, e penso que mais importante que o dito enredo, fazer o retrato de algumas situações sociais que se relacionam diretamente com a pessoa humana e com o nosso país (desigualdades sociais, emigração) e refletir sobre algumas questões que por vezes nos atormentam, como a dicotomia juventude-velhice, a morte, o sofrimento da doença, os hospitais.

Excerto do livro

“Há pessoas que se vão embora de nós. Se calhar é-nos isso pior que morrerem, não que se deseje a morte a alguém mas a verdade é que quando alguém se vai embora de nós e continua presente nos outros é como se nos passasse a flutuar por cima da cabeça e nos acompanhasse para tudo o que é sítio. Flutua-nos em cima e carrega pedaços de tempo que nos faltam, há tempos que nos faltam, há tempos que me faltam, tempos que me hão de faltar e que por muito que os disfarce com contentamentos de vária ordem sempre aqui estarão espalhando-me grãos de saudade por todo o corpo e lembrando-me das minhas desatenções passadas. Penso nisso com pena, ao menos que me previnam de desatenções futuras, nunca é tarde para se ser melhor do que se foi ontem.” (“Bem-vindos a Esta Noite Branca”, Gonçalo Naves)

Onde adquirir o livro

Neste momento o livro pode ser adquirido na livraria A das Artes, em Sines, ou junto do autor.

Fonte: Sines.pt

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