O mundo de Vasco da Gama ao alcance da mão

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O seu toque servia para marcar as horas e chamar os homens em momentos variados, fosse para “acelerar os preparativos para um combate ou enfrentar uma tempestade”, fosse para as orações. Quinhentos anos depois, o sino pertencente a um navio português descoberto ao largo de Omã pode ser uma chave na resolução do mistério. Afinal, trata-se ou não do Esmeralda, uma nau da armada de Vasco da Gama, afundada em 1503? “O sino, em princípio, tem o nome do navio. Se for bem estudado, deverá permitir fazer a identificação”, acredita o historiador João Paulo Oliveira e Costa.

O autor de História da Expansão e do Império Português (Esfera dos Livros) foi apanhado de surpresa pelo anúncio da descoberta do navio, feito esta semana pela Blue Water Recoveries, uma empresa britânica que se dedica à caça de tesouros submarinos e à recuperação de embarcações naufragadas. O achado remonta a 1998, mas as escavações só começaram em 2013. Até ao momento foram recuperadas mais de 2800 peças, o que constitui “uma das melhores colecções que temos da época”, considera Oliveira e Costa. “Este espólio vai ajudar a conhecer a cultura material do final do século XV, princípio do século XVI, e a ter um vislumbre do que era a vida a bordo naquele tempo”.

O achado é excepcional até porque, continua o historiador, “o caso mais próximo que se conheceu nos últimos tempos foi a descoberta de uma nau da carreira da Índia, na Namíbia, mas pelas contas que se fizeram trata-se de uma nau que se perdeu à ida, por volta de 1532. Esta é muito mais antiga. Nos estuários dos rios portugueses já foram encontrados vestígios de navios do século XV. Mas de uma nau da Índia, como parece ser o caso, esta é a mais antiga encontrada”, garante.

Também o autor britânico Roger Crowley, que acaba de publicar em Portugal o livro Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global (Editorial Presença) só esta semana soube da descoberta. “Esta descoberta põe-nos ao alcance da mão o mundo de Vasco da Gama. Eu tê-la-ia seguramente incluído no meu livro se tivesse sabido a tempo”, diz o historiador.

Para Crowley, além de “altamente fascinante”, o naufrágio tem um enorme interesse histórico. “Os milhares de artefactos recuperados incluem balas de canhão com as iniciais VS (que assumimos ser de Vicente Sodré), loiça portuguesa, indiana, africana e chinesa – o que indica a variedade de rotas em que os portugueses estavam envolvidos -, o sino do navio, um disco de metal com a esfera armilar de D. Manuel, pequenas armas de fogo e moedas raras. Os especialistas estão particularmente entusiasmados com uma moeda de prata chamada Índio, cunhada para o comércio com a Índia, que é o único exemplar que se conhece”.

Uma máquina de guerra

Passados cinco séculos, nada resta do casco do navio. “Os sobreviventes salvaram o que podiam, incluindo alguns canhões, e queimaram os cascos”, explica Crowley. O que restou da madeira, assim como outros materiais mais perecíveis, desapareceu por completo. “Como historiador, para mim seria muito interessante ler os diários de bordo e encontrar os mapas que usavam para navegar”, explica João Paulo Oliveira e Costa. “Mas, por mais vontade que tenha, isso de certeza que não foi encontrado. Também seria interessante descobrir os esqueletos, mas também não creio que seja viável”.

Apesar da ausência de vestígios da estrutura do navio, Oliveira e Costa não tem dificuldades em traçar-nos as suas características fundamentais. “Se for um dos cinco navios da esquadra de Vicente Sodré, como se presume, significa que tinha como destino e missão não regressar com pimenta, mas ficar em acções militares no Índico. É uma nau artilhada, com capacidade para fazer guerra sistematicamente naquelas águas hostis aos portugueses”.

O historiador português revela ainda tratar-se de um navio “relativamente pequeno, em comparação com aqueles que virão a ser construídos mais tarde”. Transportaria mais de 100 pessoas e andaria na casa dos “100, 200 tonéis” (unidade de medida que tinha em conta o número de tonéis de vinho que podia transportar, sendo que o tonel equivalia a 840 litros). “Estes eram navios com muitas velas redondas para navegar com ventos favoráveis, mas também tinham velas latinas que lhes permitiam mudar rapidamente de direcção se fosse preciso. A questão fundamental é que saíram de Lisboa de propósito para ficarem no Índico. Enquanto as armadas anteriores tinham sido essencialmente de exploração, esta de 1502 vai combater as redes mercantis muçulmanas que levavam a pimenta até ao Mar Vermelho”.

Sodrés receberam a “justa recompensa”

João Morgado, autor de romances sobre a epopeia dos Descobrimentos (Índias, que tem como protagonista Vasco da Gama, acaba de ser editado pelo Clube do Autor), faz um retrato do comandante do Esmeralda, Vicente Sodré, cuja família emprestou o nome à praça ribeirinha de Lisboa, o Cais do Sodré. “Homem experimentado em combate” e “tio de Vasco da Gama” – de quem era “o braço-direito e sobretudo o braço armado” – Sodré assumiu “o comando da armada de cinco embarcações guerreiras que ficariam em permanência no Índico, e dominariam aqueles portos e aqueles mares pelas armas”. “Esta segunda viagem de Gama às Índias é marcada pela crueldade, pela tortura, pelo avassalamento de povos, pela imposição de tributos, pela pilhagem de barcos”, continua João Morgado.

Vicente Sodré e o seu irmão Brás terão sido responsáveis directos pelo afundamento das embarcações, defende o britânico Roger Crowley. “Parece que Brás, que era particularmente cruel no tratamento de tripulações árabes capturadas, era também profundamente odiado pelos seus homens por ficar com a maior parte dos despojos”, nota o historiador britânico. “Depois do naufrágio, ele maldosamente matou os dois pilotos árabes que estavam consigo – um ato de estupidez extrema, pois eram os homens mais conhecedores que tinha a bordo. De qualquer modo, é claro que os irmãos Sodré foram pessoalmente responsáveis pelos naufrágios. Os pastores muçulmanos avisaram-nos da tempestade que se aproximava. Os Sodrés recusaram-se a acreditar neles, provavelmente porque não confiavam nos muçulmanos. Os outros três capitães mudaram os seus navios para o lado abrigado da ilha e sobreviveram. Os cronistas portugueses da época sugerem que os Sodrés receberam a justa recompensa pela sua ganância e violência”.

Artigo original do Jornal SOL

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