Recordar Al Berto

Recordamos o Poeta Al Berto, através deste artigo da autoria de Raquel Ribeiro e fotografia de Nuno Ferreira Santos, publicado no Público em 30/11/2012.

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Já quase não se ouve o riso de Al Berto em Sines

Com os Diários de Al Berto no bolso, guiado pelos seus passos, o Ípsilon foi a Sines procurar o rasto do poeta esquecido pela terra, amado pelos amigos. Sobram memórias, mas a ausência de Al Berto é quase um grito.

A voz de Julieta ainda queima ao falar de Al Berto. “Durante muito tempo não consegui lê-lo, pegar nos livros, sequer.” Julieta Aurora Santos, 48 anos, encenadora, ainda não leu osDiários, de Al Berto (1948-1997), até agora inéditos (Assírio & Alvim). A voz vacila quando conta: “Conheço o Al Berto desde a infância”, aqui em Sines. Ele era o poeta, um homem extravagante, tinha os cabelos compridos, e, apesar do corpo magro, “tinha uma presença física impressionante”. Primeiro, nasceu a admiração. “Era mais velho do que eu, foi uma referência para mim.” Depois, tornaram-se amigos, trabalharam juntos no Centro Cultural Emmerico Nunes. E dançavam. “Dançávamos imenso. Eu era o par de eleição do Al Berto. Dançávamos de tudo, noites sem fim, dançámos no Frágil e nos bailaricos de acordeão em Sines. Ele era um grande dançarino, uma mistura de Mick Jagger e Iggy Pop. Era imparável, pela noite fora”, diz Julieta, já sorrindo. Há um silêncio, um olhar que foge, a voz que se suspende. Forma-se uma cortina. E não é permitido espreitar. É assim com quase todos os amigos. É assim com a memória do poeta na terra que ele amou (Sines) e que o esqueceu. É assim também com os seus diários, homem exposto, esventrado, alma em carne viva, mas depois um período emudecido, interrupção, pequena nota a dizer:

De 30 de Out[ubro] até ao fim do ano – seria fastidioso assentar em pormenor toda a parafernália da doença: diagnósticos – solidões, angústias, tratamentos, decisões, esforços (…) – diagnosticado um linfoma (curável, segundo dizem). A viagem foi dolorosa, ainda o está a ser, neste dia 24 de Dezembro [1996].

Os Diários começam em 1982 e vão até 1997, com várias interrupções. Faltam anos (1983, todo o período 1986-1991, 1992 e 1993), mas a editora do poeta, Golgona Anghel, também biógrafa, que coordena esta edição explica que não existem diários relativamente a esses anos.

Em 1974, Al Berto regressa a Portugal do exílio em Bruxelas (refractário militar em 1967, vive na Bélgica, onde estuda Belas Artes), interrompido pelo 25 de Abril. É nessa passagem de ano de 1974 que conhece José Manuel Soares, “Suarito”, chama-lhe Al Berto. “Esse ano é também o do reencontro de Al Berto com Sines, com a sociedade sineense e rapidamente se nota que há um total desfasamento entre Sines e Al Berto, quase um choque cultural: ele vinha da Bélgica, tinha estudado pintura, fotografia, e, em Sines, vivia-se um período revolucionário muito intenso, muito politizado”, explica Soares, agente de navegação, 60 anos. A política não interessava a Al Berto e “isso criou um ambiente de caça às bruxas”.

Soares sabe que é testemunha de um tempo, de uma vila que não já não o é. A casa Pidwell, “o palácio”, foi o centro dos hippies de Sines. “Era uma torre de Babel, uma comunidade totalmente livre, sem quaisquer pruridos relativamente à sexualidade. Era uma comunidade de amigos, um pólo cultural alternativo à politização da sociedade sineense.” Não era “exclusivista, pelo contrário: a porta estava literalmente sempre aberta, qualquer pessoa, de qualquer classe política, social, de qualquer género, gays, heterossexuais, podia entrar.” E as drogas, as orgias, as festas loucas, a devassidão, a depravação, o sexo? Fala-se disso mas, dizem todos, “é sempre um enorme exagero”. Eram miúdos, livres, apaixonados, e “isso chocou de frente com os dogmas sociais e políticos com os quais o Al Berto simplesmente cortou”, conta Soares. Ainda hoje a história de Sines e a de Al Berto chocam neste espaço, o “palácio”, hoje abandonado, devoluto, ruína de um tempo testemunhado apenas por solitárias palmeiras. “É preciso conhecer Sines e a comunidade política sineense da época para compreendermos a coragem que o Al Berto teve para cortar com tudo e criar esse pólo cultural que foi o palácio Pidwell.”

Pidwell: família inglesa de alta burguesia que se muda para Sines no final do século XIX, investindo na agricultura e na pequena indústria. Ao PÚBLICO, Al Berto disse a Tereza Coelho (1991): “Sou um clássico. Tive uma avó inglesa.” E a história de Sines é também a história desta família e do contraste feroz da sua riqueza sangue-azul numa terra pobre de pescadores. O povo fala ainda daqueles Pidwell com certo desprezo. Não tem saudades de quando eles eram “os senhores da terra”, e em que o trato com os pescadores se assemelhava ao período colonial. Al Berto (Alberto R. Pidwell Tavares) nasce nessa família, mas o pai (Pidwell) morre ainda jovem e o poeta e os seus dois irmãos crescem com a família da mãe. Abandonar o nome, romper com a tradição aristocrática será uma luta até ao fim. Talvez por isso se refira à avó inglesa como “a velha”, cuja presença foi sempre uma assombração, tanto no “palácio” como na Quinta de Santa Catarina, casa senhorial sobranceira à baía da vila, que hoje já não existe. Ardeu.

Em 1976, abre a livraria Tanto Mar, em Sines. Torna-se editor. Vive em Santa Catarina. Aqui escreve Mar-de-Leva, textos dedicados à vila de Sines. Se Sines já fazia parte do seu imaginário, é nesta altura que a vila, passando por transformações profundas depois da revolução (de vila piscatória a pólo industrial, associado ao porto petrolífero) se torna obsessão de escrita, presença, espectro, sopro de vida na obra do poeta.

Sines, ao longe, cercada pela refinaria e petroquímica iluminadas. Aproxima-me doutro planeta, o mundo parece querer terminar aqui. O mar sob a lua, um rasgão de prata nocturno coalhado de astros. Quando o olho do meu terraço na rua do Forte, o mar, não passa de uma superfície azul-chumbo, ou azul-etéreo, ou simplesmente não está ali. (…) Dentro de pouco tempo será insuportável viver aqui.

Quando os Diários começam, em 1982, Al Berto trabalha como animador cultural da Vereação de Cultura da Câmara Municipal. Nesta altura, escreve ainda da Quinta de Santa Catarina:

A solidão escorre pelas paredes nuas e sujas dos imensos corredores, mas fui eu que decidi viver aqui. A casa respira silêncio, tanto de dia como de noite, conheço-a milímetro a milímetro.

Foi nesta altura que Paulo Correia, produtor cultural, 46 anos, o conheceu. “Ninguém ficava indiferente à figura do Al Berto, à forma de vestir, de estar.” Tinha 15 anos quando, numa loja de discos, Al Berto pega no primeiro álbum dos Heróis do Mar e “começa a desatinar: o que é esta merda?”, esbraceja perante a Cruz de Cristo na capa do disco. “Isto é profundamente fascista!”, gritou indignado. “Um ano depois, sai um outro single da banda,O Amor, cuja capa é uma fotografia do Paulo Nozolino [amigo do poeta]. Al Berto passa a adorar os Heróis do Mar”, diz Paulo Correia. “Conto sempre esta história porque me parece que ela define Al Berto: um homem cheio de contradições. Ele era assim: capaz de amores e ódios profundos.” A relação com Sines também: amor-ódio, “toca-e-foge”, diz Paulo. Inquieto, insatisfeito, profundamente “vagamundo”, transumante, dizia de si, nomádico, entre Sines e Lisboa, nunca estava bem em lado nenhum.

Admite estar “cansado de falar do poeta”, mas não quer deixar de sublinhar a ligação de Al Berto a Sines e ao trabalho que desenvolveu, primeiro como animador cultural da Câmara, depois como um dos fundadores do Centro Cultural Emmerico Nunes (CCEN). Paulo trabalhou com Al Berto desde 1982. Nessa altura, estava tudo por fazer: Sines foi pioneira ao criar um núcleo cultural e Al Berto um dinamizador exímio desse grupo. “Era necessário pensar um projecto, do ponto de vista político, que envolvesse os sineenses. Este projecto contribuiu para a minha educação e formação”, explica. Havia núcleos de artes plásticas, cinema ao ar livre. “O Al Berto demonstrava enorme preocupação com o património local. Fez um levantamento etnográfico importantíssimo em três áreas: da pesca artesanal, da gastronomia e das profissões de Sines.”

Al Berto organiza este projecto sobre a recuperação de uma memória de Sines, um passado que se estava a perder com o avanço das retroescavadoras alimentado pelo ouro negro. Paulo mostra um documento da época, em que Al Berto fala das suas preocupações com o célere apagar de um passado de Sines, em nome de um “progresso”. Mas Al Berto nunca se encaixou na “vida civil”.

Sinto que tenho de largar o trabalho da Câmara o mais rapidamente possível. Cada vez escrevo / produzo menos, mas o pouco que produzo requer tempo. Requer toda a minha disponibilidade, toda a minha paixão.

Os diários estão partidos em dois tempos: os anos 80 correspondem ao período de Al Berto em Sines, entrecortados por visitas a Lisboa para tratar da “coisa literária”. Há uma interrupção de 1986 a 1991, em que publica uma primeira versão de O Medo (1987), recebe o Prémio do PEN Clube (1988), e depois saiLunário (1988). Dá-se a consagração. Numa entrevista à Ler (1989), diz:

Estou em Sines e sinto-me bem. E estou lá, também, porque não tenho outro sítio nenhum para ir. Cheguei a um ponto da minha vida que não há sítio no mundo para onde se possa ir viver e ser feliz. Sines é um lugar onde tenho conforto, onde me protejo, onde ninguém me aborrece, onde posso ter uma vida diferente, sem ser autor… Sou pelo profissionalismo do escritor e da edição… mas preciso de recarregar baterias, de me proteger do mundo, também. E, lá, nada me interrompe a vida.

Na segunda parte, nos anos 90, assiste-se a um Al Berto mais errático, deixando Sines, circulando pela noite lisboeta, do Frágil aos Três Pastorinhos, e o diário, ainda que contínuo laboratório de escrita, torna-se grande colecção de name-dropping. Jantares, tertúlias com os anónimos João, Mouro, Hélder, Guinote, Julieta, Paulo, Gamela, mas no seio da farândola lisboeta, cultural, nocturna, gay, literária: Tereza Coelho, Eduardo Prado Coelho, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Tudela, Francisco José Viegas, Alexandre Melo, etc. Os diários são a agenda social da vida intensa de Lisboa. Naquela entrevista também diz:

Em Lisboa é terrível. O telefone não pára de tocar, janto fora muitas vezes, a noite é cheia de “pecado” (há em todo o lado, mas em Sines é muito mais discreto). Lisboa é a inquietação, e, como já não tenho pruridos, perco-me sempre.

Da casa de Al Berto, na rua do Forte, a praia de São Torpes e a ilha do Pessegueiro cintilam ao longe numa utopia de areias brancas. Contrastam com o ruído das construções do porto, o pó das obras. É assim nosDiários, mas também ainda hoje, Sines, terra esculpida na encosta qual cascata sobre a baía, casa de pescadores, lobos do mar, gatos vadios, vagabundos errantes que vêm nos barcos, cidades flutuantes em alto mar, e que partem com o amanhecer. Terra também de turistas itinerantes que chegam com as músicas do mundo, passam mas não ficam. Já ninguém fica.

É isto que lamenta José Carlos Guinote, 55 anos, engenheiro civil, quando fala de Al Berto com nostalgia de um tempo em que Sines, apesar de estar numa periferia cultural, intelectual, relativamente a Lisboa, podia ainda ser um pólo. “O Al Berto é um dos raros que resistem à atracção do centro, de Lisboa, que aglutina tudo”, diz Guinote. Mesmo quando estava em Lisboa, nunca esqueceu Sines, não perdeu a ligação à vila, aos amigos. “Hoje isso não se passaria. O centro devorou tudo.”

O Al Berto era “verdadeiramente um pós-moderno, à frente do seu tempo. Era muito invulgar um homem culto, de letras, como ele, não ser panfletário, não ser militante. O poder local nunca lhe perdoou essa irreverência, a independência do Al Berto em relação à política”, continua. Sines era um espaço com uma vida social intensa, os cafés estavam cheios, havia discussões políticas, estéticas. “O Al Berto era o dinamizador disso tudo. Chega da Bélgica e mobiliza esse grupo. E ao fazê-lo desestabiliza todo o status quolocal.”

Ouve-se muito o mar aqui dentro de casa. Mas não há vento, nem tempestade. Ouve-se a ressonância surda do rebentar das vagas, o ruído dos motores das traineiras. Sou um homem privilegiado, ouvir tudo isto ao entardecer.

Janeiro de 1984. Guinote viveu nesse mesmo prédio da rua do Forte, “a nossa Beverly Hills”. Vivia no segundo andar, Al Berto no rés-do-chão. “Trabalhava todo o dia, e ao final da tarde dormia uma sesta antes do jantar. Era acordado às nove pelo telefone. Era o Al Berto: “Engenheiro, vamos jantar?””

Saíam. A noite começava quase sempre no Ponto de Encontro, junto ao castelo, e não terminava até ao amanhecer, no café do Valter, no mercado. Guinote trabalhava, ficava pelo caminho, mas Julieta estava lá: “Fazíamos a rota das tascas, começávamos nos pescadores, e acabávamos onde os mais jovens iam. Qualquer razão era boa para nos divertirmos. Nas festas de Santa Catarina, só de lá saíamos ao fim de dias, quando acabavam a comida e a bebida.”

De madrugada, batia à porta. “Tenho fome”, dizia, e Valter Vilhena, hoje 55 anos, taberneiro de profissão e credo, abria a tasca. “Faz muita falta”, diz. O olhar perde-se em frente, vazio. Mas não. Ri-se sozinho, depois conta: “Um dia… havia aqui um chaparro em frente do café, e o Al Berto às vezes pendurava-se no chaparro. Bebia lá em cima e tudo. Arrancava flores dos canteiros. Já era de manhã, havia senhoras a vir ao mercado, ele dava-lhes flores.” Seria necessário passar várias noites com Valter para ele desfiar as histórias sobre Al Berto, “um excêntrico”, quando ele se cruzava no café com os pescadores que saíam para a faina, regressado dos copos com os amigos, e depois caminhando pelas pedras roladas de Sines, muro fora, até à rua do Forte, já de óculos de sol. Era boémio, noctívago, “de um humor cáustico, violentíssimo” (Guinote). Por vezes “irascível” (Julieta). Mas não tinha “aquele impulso destrutivo, suicidário; pelo contrário, tinha umajoie de vivre impressionante. Apaixonava-se muito” (Guinote). Tinha um riso contagiante. Ria muito. Vivia de forma intensa, “mas para quem não o conhece, e o lê, pensará que era só angústia ou solidão. Não: no dia-a-dia não tinha nada a ver com isso, era divertido, alegre. Exorcizava esses fantasmas através da escrita” (Julieta). Naquela entrevista à Ler, Al Berto explicava assim de onde lhe vinha a verve:

A noite tem a ver com Genet. A fuga, com Rimbaud. O lado místico com Bataille. Sade, com o imprevisto. O lado excessivo (as drogas, o álcool, embora esteja muito calmo desde há dez anos…), com Baudelaire.

Ele era talvez todos eles e ainda: Cesariny, Herberto. Ou como escreveu Agustina, no prefácio à sua biografia: “Vê-se-lhe nos olhos que obedecem a um prognóstico perigoso, o prognóstico da infância perdida. (…) Ele não pode viver como um homem, não tem lugar no mundo, nem carreira, nem amor para com nada, é um espectro de si próprio, um espelho sem reflexo nenhum. É um Dorian Gray por dentro.”

Percorre-se Sines à procura de um fantasma, porque já quase nada resta do poeta na terra. Sobram memórias destes que o conheceram, histórias que ficarão por contar. Nomes enumerando nomes: o pintor, o colega de escola, um pescador, alguém que viveu no “palácio”, que frequentava Santa Catarina, que o conhecia da noite, alguém com quem trabalhou. O “palácio”, que entrou na posse da Câmara com a extinção do Gabinete da Área de Sines, é uma ruína, agora propriedade da Caixa Agrícola que se comprometeu a fazer obras, mantendo o traçado do edifício. A rua do Forte é habitada, casa como outra qualquer, não há referência, não há placa. Não há casa-museu. E Santa Catarina ardeu.

O presidente da Câmara, Manuel Coelho, lembrou ao Ípsilon o legado de Al Berto como intelectual da cidade, mas sobretudo como animador cultural da Câmara e do Centro Cultural. “Muitos dos trabalhos desenvolvidos pelo Al Berto estão disponíveis no Arquivo Municipal. São testemunhos da cultura popular de Sines desde o século XIX (das pescas, dos corticeiros, dos artesãos), recolhidos a partir dos anos 80. Essas obras poderão ser, e devem ser, vistas e recuperadas.” As relações entre a Câmara e os herdeiros do poeta “são cordiais”. Por isso, diz: “Desde que haja vontade, e da minha parte há vontade, seria interessante perpetuar a memória do poeta, fazer de Sines um local de referência para lembrar Al Berto”.

Na Escola Secundária Poeta Al Berto, celebram-se dez anos de patronato. Vem Cristina Pidwell Tavares, irmã de Al Berto, emocionada com a homenagem dos alunos. “Esta é que é a verdadeira casa do poeta”, diz. Cada sala, um verso de Al Berto. Pelos recantos, pequenas homenagens. Viver em Sines é assistir à ausência de Al Berto pelas ruas, mas chegar aqui é encontrá-lo, de novo, vivo nas palavras.

José Mouro e Paulo Correia contam aos alunos histórias de Al Berto. A conversa dura horas. Sim, era um boémio, mas lembram: “Profissional, metódico, disciplinado.” Mouro e Correia trabalharam com o poeta no CCEN. Organizaram uma exposição em vários núcleos sobre a relação de Al Berto com Sines, alguns já apresentados no CCEN, outros ainda por completar por falta de financiamento. O núcleo, Doze Moradas de Silêncio, itinerante, inaugurou na Biblioteca de Grândola, sexta-feira passada. É uma exposição de fotografia com o percurso das casas de Al Berto, de Sines à Bélgica, passando por Lisboa.

A Quinta de Santa Catarina ocupa em Sines, nos amigos, na literatura de Al Berto, um espaço que excede os limites do que é hoje a urbanização moderna, loteada, de Santa Catarina, vista sobre a baía. Era uma casa senhorial, propriedade que se foi degradando com o tempo. No final dos anos 80, Al Berto já lá não vive. Nos anos 90, Guinote aconselha a família a vender para loteamento. “Na altura, a intenção era preservar a casa e construir-se no terreno”, conta. Mas em 1994 houve um incêndio envolto em mistério. A casa foi ocupada por toxicodependentes. Diz-se que faziam fogueiras lá dentro, arrancando as madeiras do soalho.

Na manhã do incêndio, conta Valter, “Al Berto estava aqui a tomar o pequeno-almoço quando se ouviram as sirenes dos bombeiros.” “Al Berto!”, gritou Valter, “é lá na quinta, o incêndio!” Ele encolheu os ombros: “Não sou bombeiro. Deixa arder.” Guinote conta que Al Berto lhe bateu à porta ainda cedo e lhe disse: “Santa Catarina está a arder. Já lá estão os bombeiros.” Julieta não “teve coragem” de ir ver a casa. Diz-se que grande parte da biblioteca do escritor foi consumida pelas chamas e as primeiras imagens, no rescaldo do incêndio, são daquela grande casa, agora negra, e milhares de páginas voando, livros queimados.

Diz Valter, tartamudo: “Tenho acompanhado tudo do Al Berto.” Vai lá dentro à taberna. Traz recortes de jornal e um livro, resgatado no incêndio de Santa Catarina. É de Sérgio M. N. da Costa e Silva,demasiadamente belos para quem só queria estar só, Alberto R. Pidwell Tavares, editor, 1977.

“O Al Berto dizia muitas vezes que quando morresse queria que as suas páginas escritas se apagassem, ficassem em branco. Parece uma coincidência, esse incêndio, naquela altura, poucos anos antes de morrer”, diz Julieta. É como se o seu rasto também tivesse sido apagado. As memórias ficam. Julieta sabe-o: “Há um pequeno grupo de pessoas que conhecia esse lado íntimo do Al Berto. É um lugar privilegiado. A figura pública era outra pessoa. Claro que sabíamos que ele era escritor, tínhamos consciência disso, mas, aqui, ele era apenas um de nós. Aqui ele não era o que fazia. Era ele.”

 

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