Filme sobre Al Berto apaga imagem de poeta maldito

Relação amorosa entre o poeta e o irmão do realizador, nos anos 70, cruza-se com a história de um grupo de jovens esclarecidos de Sines, deslumbrados com a liberdade. Estreia a 14 de setembro.

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O primeiro filme biográfico sobre Al Berto não conta a história de vida do poeta. Não por inteiro. A película realizada por Vicente Alves do Ó centra-se apenas no período de 1975 a 1978, depois de Al Berto regressar do exílio em Bruxelas e se instalar em Sines. Na vila da costa alentejana onde tinha crescido, vive naqueles anos uma relação amorosa que a comunidade censura. É este um dos temas principais do filme.

Intitulado “Al Berto”, tem estreia agendada para 14 de setembro nas salas portuguesas. A produtora, Ukbar Filmes, ainda não organizou sessões de visionamento para a imprensa, mas, em conversa com o Observador, Vicente Alves do Ó adiantou o conteúdo da obra.

Em vez de revisitar a narrativa do poeta maldito, apaixonado pela noite, imagem que Al Berto ajudou a construir através do que deixou escrito, o realizador escolheu uma fase solar da vida do poeta, cheia de sonhos e ambições, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, sob influência da cultura francófona, do rock inglês e americano e do espírito libertário que então se vivia.

O fim dos anos 70 é um período que pouca gente conhece, porque a imagem pública dele corresponde sobretudo à década de 80, quando se tornou célebre como escritor”, diz o realizador. “Entre 75 e 78, Al Berto estava a abandonar a pintura, que tinha estudado em Lisboa e Bruxelas, e começava a abraçar a literatura. Fascina-me perceber este tipo de motivações e escolhas dos artistas. O que ele viveu naqueles anos foi muito importante para o que viria a ser como escritor e pessoa, e revela um Al Berto muito mais solar do que se pensa.”

Vicente Alves do Ó tem 45 anos, nasceu em Sines e conheceu bem o autor de “Horto de Incêndio”. Como realizador, levou ao grande ecrã a vida da poetisa Florbela Espanca, em “Florbela” (2012), e como encenador recriou a história do cantor António Variações, na peça de teatro “Variações, de António” (2016).

O guião de “Al Berto” escreveu-o em 2014, mas decidiu há um ano, em agosto, testá-lo e alterá-lo. Mudou-se com o grupo de atores do filme para uma casa junto à Lagoa de Santo André, a poucos quilómetros de Sines, para um retiro de trabalho. Viveram por três semanas como uma família, faziam as camas, iam às compras, cozinhavam em conjunto. Este método de trabalho nunca tinha sido utilizado por Vicente Alves do Ó, mas ajudou a fortalecer a relação entre os membros da equipa, fazendo com que o filme ganhasse um tom realista no que respeita à amizade entre protagonistas. É por isso que o realizador utiliza a expressão “filme coral”.

É um aspeto tanto mais relevante quanto, naqueles anos, Al Berto viveu com um grupo de amigos numa casa senhorial à entrada de Sines, conhecida como “palácio”. A casa tinha sido pertença da família dele, mas fora expropriada para a construção de bairros operários do complexo industrial de Sines (a parte inglesa da família de Al Berto, os ingleses Pidwell, foi viver para Sines no fim do século XIX e enriqueceu com a indústria conserveira, criando laços familiares com latifundiários alentejanos). No palácio, este grupo de jovens esclarecidos de Sines adotou um estilo de vida hippie, em regime de ocupação.

Eles tinham liberdade e não sabiam o que fazer com ela”, analisa o realizador. “A ideia de que se tem tempo para tudo, e se pode ser tudo na vida, sem nos definirmos em relação a nada, marcou muito aquela geração, que acabou por se acomodar ao quotidiano. A exceção foi o Al Berto, que era um homem muito pragmático e determinado.”

Um dos jovens que viveram no “palácio” foi João Maria do Ó, irmão do realizador e então namorado de Al Berto.

Cresci a saber de uma história de amor entre Al Berto e o meu irmão João Maria, que morreu há sete anos e teria hoje 60”, lembra Vicente. “Naquela época, Sines era uma vila pequena e fechada, mas eles viveram uma história de amor à descarada, o que foi recebido com estranheza e desconforto. Eles e o grupo do palácio eram muito sofisticados, não eram uns miúdos provincianos. Tudo isso aparece no filme. Recriámos um ambiente e uma forma de estar que remete para o espírito libertário dos seventies, com o glitter e a música da época. Eles andavam em bando, eram livres e viviam sem pudores, o que provocou atritos com o resto da população.”

O guião é parcialmente inspirado em material inédito. Quando João Maria morreu, em 2010, Francisco, o terceiro dos irmãos, mostrou a Vicente os livros, diários e papéis que aquele tinha deixado. Vicente leu tudo e ficou com vontade de publicar algum material. No ano passado, saiu pela Editora Labirinto um conjunto de poemas. E mais se seguirão. Uma outra parte dos papéis serviu de fonte para o guião, além de entrevistas com quem conheceu o grupo do palácio.

João Maria legou livros completos, escreveu quase sempre para a gaveta, fechado sobre si mesmo e dependente do álcool – “atravessou o tempo escondido”, é a expressão de Vicente.

Não por acaso, o período 75-78 corresponde à duração do namoro, que terminou de forma abrupta e criando uma zanga para muitos anos. “A partir de certa altura deixaram de se falar e não gostavam que se perguntasse pelo outro. Foi uma história mal resolvida, por zanga ou orgulho, mas penso que nos anos 90 as coisas se pacificaram e eles já trocavam algumas palavras”, acrescenta o realizador.

Al Berto, pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu em Coimbra em 1948 e morreu em Lisboa em 1997, já consagrado pelo sistema literário. Aponta-se um linfoma como causa do óbito e houve à época quem negasse nos jornais que o poeta tivesse morrido com sida. Reconhecido como pioneiro da linguagem queer na literatura portuguesa, parece ter vivido a homossexualidade como elemento de marginalidade e tornou-se célebre pela prosa poética noturna, por vezes em registo sobrenatural.

Sempre que se fala nele, há a tendência de o classificar como poeta marginal, que vivia de noite, que frequentava o Bairro Alto, etc., mas ele é muito maior do que isto, há um outro lado da vivência e da personalidade que é muito mais solar”, sustenta Vicente Alves do Ó. “Tive o privilégio de ter uma relação muito próxima com ele, foi das primeiras pessoas a ler as minhas coisas, quando eu tinha 19 anos e escrevi um espetáculo que foi apresentado em Sines. Ele não se resignava ao mal de viver, embora escrevesse sobre isso.”

Nessa fase, início dos anos 90, já Al Berto estava consagrado. Relacionava-se muito bem com o meio intelectual de Lisboa, dirigia o Centro Cultural Emmérico Nunes, em Sines, que ajudou a fundar, e levava à terra os nomes portugueses mais conhecidos das artes e letras. “Cresci com o Al Berto a convidar para o Centro Cultural todos os grandes nomes, Cabrita Reis, Rui Chafes, Ilda David, Nuno Artur Silva, tanta gente. Uma grande parte da minha formação artística foi feita desta forma. O Al Berto conhecia toda a gente”, recorda o realizador.

Quanto ao elenco do filme, é quase integralmente composto por atores jovens e pouco conhecidos. Destaca-se Ricardo Teixeira, de 25 anos, que faz de Al Berto. Foi escolhido por Vicente Alves do Ó por ter semelhanças físicas com o poeta, incluindo na voz.

Conheço tanta gente incrível dos teatros que precisa de uma oportunidade. Não queria miúdos viciados pelas televisões e novelas, queria frescura de quem ainda sonha com isto, e fui à procura”, conta o realizador. “Quando encontrei o Ricardo Teixeira, percebi que ele tem muita coisa do Al Berto e quando ouvi o tom de voz fiquei completamente convencido.”

A rodagem de “Al Berto” durou seis semanas, entre outubro e novembro do ano passado. Três semanas em Sintra, num local que se assemelha ao “palácio” em que o poeta viveu (hoje em ruínas, propriedade de uma instituição bancária), e três semanas em Sines. O financiamento foi assegurado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual, pela RTP e pela Câmara de Sines.

Noticias de Sines com Observador

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