Ilha do Pessegueiro em destaque no National Geographic

Ilha do Pessegueiro em destaque no National Geographic.

Náufrago da evolução costeira e repositório da história da ocupação humana, a ilha do Pessegueiro justifica uma visita atenta.

Um texto original de Carlos Neto de Carvalho

Infografia: Anyforms Design

Paisagem única do litoral português, a ilha do Pessegueiro tem origem num vasto sistema dunar que se estendia pela planície litoral alentejana há 70.000 anos, num período glacial em que o nível do mar regrediu até 12 quilómetros da costa atual.Entre lâminas de areia eólica composta sobretudo por fragmentos de conchas, encontram-se vestígios de uma fauna impossível de existir nas condições insulares atuais: veado, lince-ibérico e coelho deixaram os fósseis das suas pegadas. No Canto da Pedra dos Corvos, vamos encontrar o único registo de pegadas de aves fossilizadas conhecido em Portugal.Hoje, a duna fóssil do Pessegueiro encontra-se separada da praia da Ilha por um canal de 250 metros de largura e até sete metros de profundidade. De Porto Covo, bastarão 10 minutos no barco do mestre Matias para alcançar a “ilha” e conhecer o seu vasto património.Da fauna de idade plistocénica, nada resta face à exiguidade do espaço atual. No entanto, merece referência a presença da cobra-cega, na única população insular que se conhece deste endemismo ibérico. Pessegueiro não reflecte a flora local, especialmente adaptada a condições de extrema secura e salinidade, mas a derivação latina que adjectiva a riqueza piscatória que ainda é das mais importantes da região. Este recurso, os minérios da serra do Cercal e o seu posicionamento estratégico ditaram uma ocupação humana regular da ilha do Pessegueiro entre os séculos IV e III a.C e a primeira metade do século V d.C.

A sudeste da ilha, vamos encontrar as ruínas de um entreposto comercial romano com fundição, onde foram transaccionados produtos oriundos do Norte de África, mais tarde transformado num centro industrial de salgas de peixe, onde não poderia faltar o balneário. Já no século XVI, em pleno período filipino, a proliferação de corsários ingleses e argelinos ditou que se procurasse concretizar o primeiro projecto de construção de um porto oceânico na costa alentejana.Na Ponta da Obra, extremidade norte da ilha, encontramos um labirinto de gigantescos blocos talhados, assim como uma larga plataforma com as fundações da maquinaria utilizada por Alexandre Massai para cortar e transportar os enormes blocos, alguns atingindo 150 toneladas, com que se pretendia construir o molhe portuário. O varadouro e cisternas escavados na rocha serão desse período. O engenheiro napolitano foi ainda incumbido de construir o “fortezinho” que se encontra no ponto mais alto da duna fóssil, assim como o Forte do Pessegueiro, edificado sobre a praia para defender o canal. O projeto foi, no entanto, abandonado em 1603 e o Forte da Ilha, de planta rectangular, com quatro pequenos baluartes nos cantos, e fosso rasgado na rocha, não chegou a ser acabado.A mandíbula de cachalote que dá hoje as boas-vindas ao visitante lembra-nos que estamos num spot de mergulho em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. O maior porto de Portugal acabou por ser construído em 1978, a mais de uma dezena de quilómetros a norte da ilha do Pessegueiro, em Sines. E ainda bem!

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